Impressões de um trabalho de campo em Roraima

Por Sofia C. Zanforlin. Dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM) mostram que 5,6 milhões de venezuelanos deixaram seu país desde 2015. Entre janeiro de 2017 e agosto de 2021, o Brasil acolheu 635.257 venezuelanos, depois do fluxo disparar 922% no biênio anterior. O governo brasileiro adotou a estratégia de abrigar e interiorizar os venezuelanos a partir da criação da Operação Acolhida (OPA), em 2018. A ação é levada a cabo pelo Exército Brasileiro, a ONU (Acnur e OIM) e ONGs que atuam no acolhimento em Roraima e em estados de diferentes regiões que recebem os migrantes.

Theodor Adorno e o jazz: desfazendo confusões através de um recorte histórico

Por Lucas Fiaschetti Estevez. Dentre os inúmeros temas abordados na vasta obra de Theodor W. Adorno, a sua análise a respeito do jazz suscitou um amplo e acalorado debate. As primeiras considerações do autor a respeito surgem pontualmente em alguns de seus escritos dos anos 1920 e passam gradativamente a ocupar um lugar central em sua obra na década seguinte, como em Adeus ao Jazz (1933) e Sobre o Jazz (1936). Desde então, sua análise desse gênero musical pode ser encarada como um momento daquele diagnóstico a respeito da padronização da cultura e sua colonização pela lógica mercantil, que encontraria sua exposição mais famosa em A Indústria Cultural: O Esclarecimento como Mistificação das Massas (1944). Nas décadas seguintes, Adorno ainda voltou a tratar do jazz de forma mais detida em Moda intemporal – Sobre o Jazz (1953) e em seus cursos de Sociologia da Música (1961-62).

O PCB, a questão racial e a questão nacional: a ambiguidade de uma singularidade    

Por Marcelo Martins da Silva. O debate sobre a incorporação da questão racial brasileira nas instituições políticas é fundamental para a avaliação do quanto elas têm absorvido e respondido às demandas por igualdade social a partir dessa questão específica. Por questão racial brasileira entendemos uma histórica opressão e superexploração que tem raiz na escravidão e na violência colonial, que se estende por toda a história republicana do país, impondo à população negra índices mais baixos de desenvolvimento socioeconômico.

Cão Leal (Parte II)

Por Fellipe Eloy T. Albuquerque. Em “Simians, Cyborgs, and Women” (2018), Haraway usa de metáfora para pensar “mundos possíveis”. A chamada para artigos (COWAN; RAUL; LEBLANC, 2020) do periódico feminista Catalyst: feminism, theory, technosciencie convocou, em 2020, especialistas, artistas, estudantes e interessados em geral para pensarem juntos, dentre tantas coisas, como as múltiplas histórias de metáforas, ‘positivas’ ou ‘negativas’, influem no modo como a linguagem nos ajuda a perceber o mundo.

Cão Leal (Parte I)

Por Fellipe Eloy T. Albuquerque. Imagine você, após uma noite de sono, despertar em um sonho… O mundo está cheio de homens e cães. Não existem mulheres ou crianças… só cães machos, jovens ou velhos e filhotes. Todos devemos concordar que seria algo amedrontador, com certeza, não se trataria de um sonho, mas sim um pesadelo. Onde já se viu, homens e cães convivendo em harmonia, sem mulheres?

Exportação Marítima de Gado Vivo: legados do especismo colonial

Por Rafael van Erven Ludolf. O comércio global de exportação de animais vivos tem sido foco de diversos tipos de críticas, principalmente em razão de maus-tratos aos animais. Por isso, foi alvo de repúdio público, ações judiciais, proposições legislativas, suspensões temporárias e sofreu até mesmo proibições definitivas, como ocorreu por exemplo na Nova Zelândia e na Índia. No Brasil, que atualmente ocupa o segundo lugar no ranking mundial na exportação de gado vivo, há propostas de lei visando a proibição do referido comércio, como o PLS 357/2018 (Senado Federal), em tramitação.

O artigo 142: de vilão a mocinho da democracia brasileira

Por Lis Barreto. O presente artigo surgiu de achados que incorporaram a minha tese de doutorado, os quais demandaram destaque e debate devido às provocações feitas pela história recente do Brasil. Este texto foi escrito entre os meses de novembro e dezembro de 2022, enquanto o País assistia às manifestações antidemocráticas que surgiram em contestação do resultado do pleito eleitoral. Entre ameaças golpistas, bloqueios de estradas e saudações nazistas, destacou-se entre os manifestantes o uso do argumento de que seria legítimo e constitucional uma possível intervenção das Forças Armadas nos Poderes Constituídos, pois o artigo 142 da Constituição Federal de 1988 permitiria isto.

Em busca de um método: crítica social entre passado, presente e futuro

Por Gustavo F. Lima e Silva. Esse trecho de uma entrevista concedida por Michel Foucault nos anos 1970 é frequentemente invocado por aqueles que desejam se utilizar dos arquivos do pensamento político clássico, moderno e contemporâneo para o desenvolvimento de uma crítica social do tempo presente . Os textos do passado, segundo uma conhecida metáfora, poderiam ser mobilizados como uma “caixa de ferramentas”, de modo que conceitos, análises e métodos seriam presentemente mobilizados, ainda que apartados de seu contexto e até mesmo de seu sentido original. É interessante pontuar, entretanto, que tal figuração da entrevista de Foucault depende, ela mesma, de um exercício radical de descontextualização.

Quilombos, uma realidade social ainda encoberta e uma necessidade de reflexão sobre privações sociais e as políticas públicas

Por Leonardo da Rocha Bezerra de Souza. Recentemente, em parceria com o Prof. Dr. João Bosco Araújo da Costa, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), publicamos o artigo “As Políticas Públicas e as Privações Sociais em Territórios Quilombolas: a comunidade da Aroeira no Rio Grande do Norte”, na revista Contraponto, do programa de pós-graduação em Sociologia da UFRGS. Esse texto é produto de uma pesquisa realizada entre os anos de 2018 e 2020, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS/UFRN). O objetivo central do trabalho era demonstrar como agem as políticas públicas através do combate às privações sociais nessa comunidade. Nesse caso, temos como principal política pública a de regularização do território quilombola (RTQ), regulamentada pelo Decreto nº 4.887 de 2003, assinado pelo então presidente Lula.

Verdades perenes, mitologias e legitimação: uma abordagem a Hans Morgenthau através de Quentin Skinner

Por Paulo Bittencourt. Partindo do meu interesse nas teorias das Relações Internacionais, e considerando o papel importante que Hans Morgenthau ocupa neste campo, o objetivo deste texto é apontar alguns dos pressupostos do autor germânico para a elaboração de seu ponto de vista sobre a política. A partir disso, viso demonstrar como sua visão é passível de uma crítica na chave daquilo que Quentin Skinner chamara, em 1969, de mitologias. Ora, tendo em vista que Morgenthau elabora sua visão da “política entre as nações” a partir da teoria política, e tendo em vista também que a história das ideias políticas – ou melhor, dos argumentos e reformulação dos argumentos políticos visando a sua legitimação (PALONEN, 1997) – é a preocupação principal de Skinner em Meaning and understanding in the history of ideas, não me parece descabido combinar esse interesse pessoal ao objeto de estudo dos autores em questão.