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Início > Sem categoria

A polícia contra Iansã na escola? Ofensiva anti-igualitária para além do gênero e da sexualidade

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Tiago Duque1

22 de julho de 2026

No campo da Educação, as temáticas das diferenças têm sido analisadas academicamente em distintas perspectivas teórico-metodológicas. Uma delas tem relação direta com os Estudos Culturais, articulados com outras perspectivas pós-críticas. Em um contexto marcado pelo que tem sido chamado de “era digital”, diferentes artefatos, em interação com a mais variada audiência, nos apresentam possibilidades de reflexões sobre o que e como se ensina em relação às diferenças. Nesse sentido, o currículo (Silva, 2013) e a pedagogia (Sabat, 2021) em questão são o que aprendemos com, na e pela cultura, mas não necessariamente aqueles conhecimentos modos de ensino-aprendizagem restritos aos documentos, práticas e legislações escolares.

Ainda que muitas vezes essas experiências de produção de modos de ser, pensar e agir ocorram na escola ou tratem de seus cotidianos, sabemos o quanto gênero e sexualidade, em especial, têm sido alvo de diferentes empreendedores morais antigênero na produção de pânicos morais que inviabilizam ou limitam ações pró-igualdade de direitos. Contudo, aqui, quero pensar em um sentido ainda mais interseccional, tomando essas atuações em termos anti-igualitários e não apenas antigênero, na tentativa de ampliar a análise para outras marcas de diferenciação, como geração, religiosidade e raça, de modo a “enfatizar o tensionamento desses movimentos em relação aos princípios democráticos da igualdade e da universalidade” (Miskolci; Pereira, 2019, p. 3).

Em meus estudos sobre desinformação, gênero e sexualidade nos ambientes de interação digital (Duque, 2023; 2026), uma das experiências que tenho acompanhado é a em que um pai, policial militar, entra em uma escola pública de Educação Infantil, na cidade de São Paulo, em novembro de 2025, acompanhado de outros colegas armados, após uma atividade educativa que a professora de sua filha desenvolveu com ela sobre os orixás. A criança em questão teria desenhado Iansã (Durães, 2025).

Segundo o que foi noticiado, a Polícia Militar (PM) “instaurou apuração sobre a conduta da equipe que atendeu à ocorrência, inclusive com a análise das imagens das câmeras corporais” (Agência Brasil, 2025). Isso foi feito porque “a professora da unidade de ensino registrou boletim de ocorrência contra o pai da estudante ‘por ameaça’” (Agência Brasil, 2025). Recentemente, o caso ganhou ainda mais visibilidade porque as imagens das câmeras corporais dos policiais tornaram-se públicas, comovendo parte da audiência das redes sociais frente à postura séria e coerente da diretora da escola diante da ação de coação antidemocrática dos policiais em questão. 

Devido às provas levantadas e à repercussão nas redes sociais, em fevereiro de 2026, o pai, policial militar, foi indiciado por “intolerância religiosa”. “Já a atuação dos policiais que entraram armados na escola infantil, até o final da escrita deste texto, segue sob investigação por meio de um Inquérito Policial Militar” (Dauer; Odara, 2026). A importância de analisar esse fato está, por exemplo, no desafio posto no que se refere ao enfrentamento das desigualdades de direitos e no reconhecimento da diversidade cultural e religiosa (Brasil, 1990), em um país marcado por um histórico autoritário frente às diferenças. Dito isso, a pergunta que orienta esta reflexão é: qual é o currículo e a pedagogia cultural da “intolerância religiosa” produzidos na internet em torno da escola pública, a partir do caso envolvendo os policiais e o desenho de Iansã?

 O levantamento de dados para esta pesquisa é feito por meio da etnografia digital. Ela mantém critérios tradicionais da experiência etnográfica, como observação das interações sociais, registro sistematizado do que se observa e atenção à posição do pesquisador em campo, mesmo quando este é digital. Ao mesmo tempo, entendo a experiência etnográfica na internet como sofrendo a intervenção algorítmica; portanto, não apenas marcada por agenciamento humano, mas considera-se também certo agenciamento de máquinas (Duque, 2024).

Em um primeiro momento do estudo, coloquei em prática a perambulação etnográfica (Leitão; Gomes, 2022), isto é, deixei-me levar aleatoriamente por inúmeros artefatos e ambientes de interação em que a experiência de invasão da escola pelo pai policial foi divulgada ou comentada. Isso foi possível por meio de mecanismos de busca e também por conduções algorítmicas dos meus perfis pessoais nas redes sociais, como Facebook e Instagram. Não fiz um perfil exclusivo para o estudo porque o meu uso pessoal das redes sociais favoreceu o encontro do conteúdo que busco analisar, por ter sido amplamente abordado por perfis, plataformas e sites que já frequento. Somente endereços e ambientes abertos e públicos foram acessados, sem a necessidade de solicitação de autorização prévia para o desenvolvimento da pesquisa. 

Também, como recorte de pesquisa, após a perambulação, selecionei apenas ambientes de interação onde encontrei artefatos jornalísticos, sejam eles em formatos de textos ou vídeos. Além disso, por questões éticas, não vinculo os dados de interação (perfis ou páginas envolvidas nos comentários ou reações das interações) ao conteúdo aqui apresentado, a fim de preservar, na medida do possível, as identidades dos interlocutores que interagem nesses ambientes.

Com a etnografia realizada, foi possível organizar os aspectos curriculares (conteúdo que se ensina) e pedagógicos (modos de ensinar) em três temas: “Estado laico”; “autoridade familiar” e “criminalização do trabalho docente”. Apresento-os aqui dessa forma apenas como uma estratégia analítica inicial para tentar caracterizá-los, sabendo que eles não estão separados nesta e em outras experiências que ameaçam a valorização das diferenças, portanto, a própria democracia e o direito à Educação. Em vários comentários, ensina-se sobre a “intolerância na escola” por meio de emojis. Esses usos culturalmente pedagógicos nem sempre tornam evidente o sentido da crítica: “😡😡🤡🤡”; “👏” e “❤️”. Somente quando acompanham posicionamentos explícitos em forma de texto é que se torna possível compreendê-los em meio à interação, se é algo que apoia a PM ou se vai contra a ação.

A discussão sobre o “Estado laico” aparece mais nas interações do que no conteúdo dos artefatos, mesmo alguns jornalistas apresentando o caso e classificando-o como “absurdo”. Em um comentário, lê-se: “Uma vergonha para nosso país que se diz ‘laico’!”. Em outro: “Amém, Deus abençoe esses policiais”. Assim, o conteúdo em relação ao que se lê ou assiste sobre o ocorrido, quanto ao tema da laicidade, apresenta opiniões opostas. Polêmicas em termos de ideias opostas constituem certa pedagogia de se ensinar na internet, especialmente devido ao modo de funcionamento algorítmico (Padilha; Faccioli, 2018). Comentários também são feitos considerando outras experiências em SP, como a doutrinação da PM por meio de lideranças religiosas evangélicas (Nascimento, 2023) em seus templos: “Resultado da união entre PM e igreja Universal, com a teologia do domínio.”

A autoridade familiar é compreendida aqui em termos mais amplos, com crescentes defesas de escolas cívico-militares e da educação em casa, muitas vezes justificadas em torno da suposta ameaça do que se convencionou chamar de “ideologia de gênero”. Ainda que esses temas não tenham surgido no trabalho etnográfico para este estudo, eles contextualizam experiências também pouco ou nada democráticas. Assim, refiro-me, como em um comentário, à experiência da PM nessa escola como “[…] autoritarismo 😢”. Cada vez mais, em uma sociedade que se encontra marcadamente em um contexto de neofascismos e neoliberalismos (Acosta; Gallo, 2024), a família é tema curricular, e as suas atribuições frente a pânicos morais que vão além do gênero e da sexualidade não deixam de configurar também questões de geração, raça e religiosidade.

Argumentos de que a escola estava “ensinando religião” apareceram em diferentes momentos do trabalho de campo, mesmo com a justificativa oficial das professoras da escola de que era “educação antirracista” (São Paulo, 2002). Inclusive, tags em notícias traziam a polaridade entre “intolerância religiosa” e “consciência negra”. Sobre isso, lê-se em um comentário: “[…] isso pode confundir a criança, o que a escola está ensinando com o que a criança aprende em casa.” A relação público-privado tem permeado temas que envolvem a “intolerância” à discussão de gênero e sexualidade na escola (Louro, 2004), mas, como apontam os dados aqui apresentados e analisados, também os de religiosidade e raça. A questão geracional, baseada, por exemplo, na ideia de “proteção às crianças” versus “perigo à infância” é recorrente tanto quando envolve gênero e sexualidade, como quando envolve raça e religiosidade (desde que a religião, supostamente ameaçada, seja a cristã).

Isso coaduna com outros estudos que apontam para a “criminalização do trabalho docente” quando o tema são as diferenças de raça, gênero e sexualidade. Um dos comentários, em diálogo com outras pessoas da audiência que acusavam a PM de desconhecimento das políticas educacionais, afirma: “ignorância é trazer coisas pras crianças aprenderem do país menos desenvolvido do mundo”. Mais do que simples desconhecimento sobre o valor cultural dos diferentes países africanos, percebe-se o racismo sendo exposto na interação. 

Exatamente isso é o que justifica, segundo um líder sindical entrevistado por um dos veículos de imprensa, o tipo de crime que se quer evitar com a educação antirracista. Com o intuito de ilustrar o ocorrido e/ou apresentar a produção artística fruto da ação da PM, em um dos vídeos jornalísticos exibem-se os desenhos feitos pelas crianças, afixados em um mural de forma circular, onde também se encontra a imagem da capa do livro usado na referida atividade (Olivina, 2021). Pedagogicamente, para além dos emojis, também é possível conferir que as imagens do campo etnografado fazem circular um conteúdo que se quis fora da escola infantil, inclusive de uma obra premiada como essa que fundamenta a prática docente.

Ainda de modo provisório, devido a continuidade da pesquisa, afirmo que, ao analisar os aspectos currículo-pedagógicos relacionados ao ensino sobre “intolerância” em uma escola pública, situando-os no contexto mais amplo da ofensiva anti-igualitária no Brasil, cheguei a três tópicos curriculares: estado laico, autoridade familiar e criminalização do trabalho docente. Eles se inter-relacionam e não devem ser compreendidos isoladamente. O modo como esse conteúdo é ensinado diz respeito ao próprio funcionamento tecno-digital dos ambientes jornalísticos etnografados: textos informativos com imagens diversas, comentários em forma de textos muito curtos e usos de emojis. O clima que faz circular essas informações pedagogicamente tem relação direta com o funcionamento dos algoritmos: disputas e, por vezes, rejeição, expondo conflitos que atravessam a educação contemporânea quando o tema são as diferenças de raça, gênero, sexualidade, geração e religiosidade.

Referências Bibliográficas

ACOSTA, T.; GALLO, S. Infâncias, juventudes e sexualidades na escola em tempos de neoconservadorismo e pós-fascismo. Childhood & Philosphy, Rio de Janeiro, v. 20, p. 01-22, 2024. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/childhood/article/view/79258/50187. Acesso em: 25 jun. 2026.
AGÊNCIA BRASIL. PM entra armada em escola em SP após queixa de pai de desenho de orixá. Agência Brasil. 17 nov. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-11/pm-entra-armada-em-escola-em-sp-apos-queixa-de-pai-de-desenho-de-orixa. Acesso em 25 jun. 2026. 
BRASIL. Lei 8.069/1990 de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 13 jul. 1990. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 25 jun. 2026. 
DAUER, L.; ODARA, N. Pai que acionou PM em escola por causa de desenhos de matriz africana é indiciado por intolerância religiosa. G1 SP e Globo News. 5 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/03/05/pai-que-acionou-pm-em-escola-por-causa-de-desenhos-de-matriz-africana-e-indiciado-por-intolerancia-religiosa.ghtml. Acesso em: 25 jun. 2026. 
DAUER, L. Vídeo mostra entrada de policiais em escola após pai reclamar de lição sobre orixá; diretora explica tarefa e policial diz que ela queria ‘impor ideologia’. G1 SP. 23 jun. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/06/23/video-mostra-entrada-de-policiais-em-escola-apos-pai-reclamar-de-licao-sobre-orixa-diretora-explica-tarefa-e-policial-diz-que-ela-queria-impor-ideologia.ghtml. Acesso em: 25 jun. 2026. 
DUQUE, T. Deve o pesquisador tomar catuaba? In: OLIVEIRA, D. A.; SILVA-SILVA, L. C.; SALES, S. (Orgs.). Metodologias de Pesquisa Científica no ciberespaço/cibercultra. Curitiba: Appris, 2024. p. 41-59.
DUQUE, T. E se as renas não viessem para o Natal? Gênero, sexualidade e governamentalidade pós-covid-19 em Campo Grande (MS). In: NANTES, F. A.; DUQUE; T. (Orgs.). O que restou dos nossos amores? Da reivindicação de determinados corpos à política dos afetos. 1ed.Campo Grande: Editora da UFMS, 2026. p. 215-232. Disponível em: https://repositorio.ufms.br/bitstream/123456789/14303/1/O%20QUE%20RESTOU%20DOS%20NOSSOS%20AMORES%20-.pdf. Acesso em: 08 jul. 2026.
DUQUE, T. O quadro preso e a proibição da linguagem neutra: ofensiva anti-igualitária em Mato Grosso do Sul. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, v. 32, p. 31-49, 2023. Disponível em: https://www.revistas.uneb.br/faeeba/article/view/17713/12484. Acesso em: 08 jul. 2026. 
DURÃES; U. Pai aciona polícia por desenho de orixá, e agentes entram armados na escola. Uol. 17 nov. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2025/11/17/escola-pai-filha-orixas-sp.htm. Acesso em: 08 jul. 2026. 
LEITÃO, D. K.; GOMES, L. G. Etnografia em ambientes digitais: perambulações, acompanhamentos e imersões. Antropolítica – Revista Contemporânea de Antropologia, v. 1, n. 42, p. 41–65, 2022. Disponível em: https://periodicos.uff.br/antropolitica/article/view/41884/pdf. Acesso em: 25 jun. 2026.
LOURO, G. L. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
NASCIMENTO, G. Fardados e consagrados. Intercept Brasil. 29 maio 2023. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2023/05/29/como-a-igreja-universal-esta-doutrinando-as-forcas-policiais-do-brasil-e-os-governos-fingem-que-nao-veem/. Acesso em: 25 jun. 2026. 
OLIVINA, L. Ciranda de Aruanda. Cuatro Cantos, 2021.
MISKOLCI, R.; PEREIRA, P. P. G. Educação e Saúde em disputa: movimentos anti-igualitários e políticas públicas. Interface, Botucatu, p. 1-14, 2019. Disponível em: https://www.scielosp.org/pdf/icse/2019.v23/e180353/en. Acesso em: 25 jun. 2026. 
PADILHA, F.; FACIOLI, L. Sociologia Digital: apontamentos teórico-metodológicos para uma analítica das mídias digitais. Ciências Sociais, São Leopoldo, v. 54, n. 3, p. 305-316, 2018. Disponível em: https://revistas.unisinos.br/index.php/ciencias_sociais/article/view/csu.2018.54.3.03. Acesso em: 25 jun. 2026.  
SABAT, R. Pedagogia cultural, gênero e sexualidade. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 9, n. 1, p. 4-21, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/a/hqknn4NtLrGpyGQMB8p7ByB/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 25 jun. 2026.   
SÃO PAULO. Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Currículo da cidade: educação antirracista: orientações pedagógicas: povos afro-brasileiros. – versão atualizada. – São Paulo: SME / COPED, 2022. 232 p. Disponível em: https://acervodigital.sme.prefeitura.sp.gov.br/wp-content/uploads/2023/04/Curriculo-da-Cidade-Ed.-Antirracista.pdf. Acesso em: 25 jun. 2026.    
SILVA, T. T. da. Currículo e identidade social: territórios contestados. In: SILVA, T. T. da (Org). Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos estudos culturais em educação. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 185-201

* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova! 


Fonte imagética: Ferramenta de Iansã. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ferramenta_de_Ians%C3%A3,_Centro_Esp%C3%ADrita_Nossa_Senhora_da_Guia_%287%29.jpg


  1. Professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq (Educação). E-mail: tiago.duque@ufms.br. ↩︎

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